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sexta-feira, 1 de julho de 2011

Nicarágua tao estranhamente inédita

Capa da segunda edição - a primeira pela Muchnik Editores

Já fiz aqui meu comentário sobre “Nicaragua, tan violentamente dulce”, mas volto ao assunto porque descobri que, de certa forma, meu texto está incompleto. Para começar, a edição nacional (na qual baseei meu primeiro texto) traz, no lugar do poema “Notícia para viajantes” (“Noticia para viajeros”, em espanhol), apenas o título do poema e uma foto de Cortázar.
 E mais: acontece que a primeira edição do livro é de 1983, quando a Ediciones Monimbo publicou-o em Manágua. No ano seguinte, porém, a Muchnik Editores (de Mario Muchnik, amigo e por vezes fotógrafo de Julio Cortázar – inclusive no último verão da vida de JC, que passaram juntos) publicou, em Buenos Aires, uma edição aumentada (dados da bibliografia estabelecida por Gladis Anchieri para a edição crítica de “Rayuela” na Colección Archivos). Essa edição continha cinco textos a mais e, como só soube disso há pouco tempo, escrevo este texto para complementar o anterior.
                Não sei por que a editora que publicou “Nicarágua tão violentamente doce” (aliás, não sei se leva vírgula, dois pontos ou nada... em cada lugar está escrito de um jeito diferente...) no Brasil usou a versão da Monimbo e não da Muchnik. Talvez questões contratuais, royalties, ou algum outro problema pouco compreensível para quem não é do ramo, como eu. Mas o problema da omissão de “Notícia para viajantes” no livro me parece que foi descuido. Nunca fez nenhum sentido para mim que uma foto de Cortázar aparecesse na primeira página do livro e com um título – ainda mais com um título que não parecia ter nada a ver com a foto. (Já se viu alguma foto que fosse a notícia, e não apenas ilustrasse a notícia?)
                Enfim, o que está feito, feito está; mas é uma pena que o poema não tenha aparecido na versão nacional, porque, para mim, é o texto mais bonito do livro, pelo menos entre esses que estavam inéditos para mim até pouco tempo. Em seis quadras, Cortázar descreve um lugar onde “todo es corazón y rienda suelta/ y en las caras hay luz de mediodía,/”; um lugar que não é nenhuma das metrópoles da América Latina e a que se chega guiado pelo vento da liberdade; Manágua, “de pie entre ruinas", mais que uma terra, tem “su puerta abierta,/ todo el país es una inmensa casa”. Acredito que esta é a melhor expressão do que sentia Cortázar por aquela época; a Nicarágua era o lugar onde se sentia em casa, porque, apesar de sua ligação com a França e com a Argentina, não havia, nesses dois outros lugares, como conciliar, liberdade e latinidade.
                Os outros textos não são tão poéticos, mas são intelectualmente muito aguçados. O primeiro deles, talvez o mais completo, é “Apuntes al margen de una relectura de «1984»”, em que Julio compara a realidade de então com aquela imaginada por George Orwell no livro “1984”. Misto de crítica literária com tese sociopolítica, nele a obra de Orwell e a condição do povo nicaraguense se complementam e se explicam.
                Seguem-se, então, os textos que estão também na outra edição. Os textos que só aparecem nesta continuam após o último texto da outra edição, ou seja, “Discurso de recepción de la Orden Rubén Dario”. “Las batallas desiguales” é o primeiro deles. Nele, Cortázar analisa como os artigos de jornais (principalmente dos Estados Unidos e da Europa) podem distorcer a informação, negando ao seu público a realidade do que ocorria, então, na Nicarágua.
                “Um sueño realizado: El arte de las Américas llega a Nicaragua” tem uma temática mais animadora: a criação e gerência de um grande museu de artes no país centro-americano. Transcrevendo trechos de uma conversa com Carmen Waugh, Julio conta como se conseguiu obter doações de obras de arte e encontrar um espaço para exibi-las, partindo de uma ideia que não centralizasse o museu em Manágua, mas que espalhasse a arte por todo o país, à medida do possível.
                Em seguida, “Nicaragua: El «fast food» de las noticias” volta a comentar sobre as notícias, mas desta vez focando na inação dos leitores, daqueles que as liam mas não faziam nada, acreditando confortavelmente que apenas a adesão ideológica era suficiente. ”¿Nos vamos a quedar así, comiendo el fast food de las noticias diarias como si vinieran de Marte?”, pergunta Cortázar a certa altura do texto. E, mais adiante: “Hay momentos en que envidio al primer bonzo que se inmoló por el fuego como gesto supremo de repugnancia ante lo que lo rodeaba. Pero a la vez sé que ese no es el camino. Un pueblo se bate allá lejos por su dignidad y su felicidad: en su ejemplo está el camino. ¿De qué sirve escribir estas líneas que tanta gente tirará junto con el diario? De nada, piensa el bonzo y se pega fuego. Pero la verdadera nada, el triunfo de la entropía definitiva, estaría en no escribirlas.” O que é uma crítica que será sempre atual, seja na Nicarágua da década de 1980 ou no Brasil da década de 2010 ou em qualquer lugar e tempo.
                Por fim, “De diferentes maneras de matar”, em que Cortázar fala da vontade do governo nicaraguense em negociar (os EUA cessariam de ajudar grupos antirrevolucionários nos países vizinhos enquanto a Nicarágua cessaria de ajudar forças rebeldes em El Salvador, por exemplo), vontade que não encontra recíproca nos americanos, segundo JC. É um texto longo, complexo e, creio, mais datado que os outros – mas o principal é bastante compreensível . Cortázar ajuda a entender o que quer dizer com suas comparações (como Maquiavel falando de César Borgia, por exemplo) e com conclamações (“¿Dejaremos que le claven las manos y los pies para que un insolente procónsul siga jugando con el resto del mundo en nombre de una pax... norteamericana?”).
                Algumas edições ainda trazem “«Buenas noches»”, uma entrevista com Julio.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Argentina: Años de Alambradas Culturales

Estojo de Obras Completas, volume VI: Obra crítica

Julio Cortázar é visto, mais do que como um grande contista ou romancista, como um grande ficcionista. É sensível a liberdade criativa que ele sentia para com seu trabalho; não diria inventando novas realidades, mas, sim, se permitindo lançar à realidade os enfoques que surpreenderiam o leitor.

Talvez por achar que os textos políticos de Cortázar não têm essa característica, há leitores que pouco ou nada se interessam por eles. Esse é um grande erro. E “Argentina: Años da Alambradas Culturales” é a prova disso.

O interesse de Julio pela política foi maior no fim de sua vida, quando se engajou nos processos democráticos de países da América Latina. Aliás, “Argentina: Años de Alambradas Culturales” é um livro póstumo; apesar praticamente pronto antes de sua morte – Julio chegou, inclusive, a escrever a introdução para o livro, em janeiro do ano de sua morte, 1984 –, só foi publicado em setembro do mesmo ano. Provavelmente por isso, as reflexões contidas nesse livro me parecem mais maduras do que as de “Nicarágua tão Violentamente Doce”.
Mas nem a idade, nem a seriedade do assunto privaram Cortázar de seu vigor imaginativo e de sua capacidade de criar imagens que, longe de desrespeitar a gravidade das questões geopolíticas, são divertidas e comunicam muito bem a mensagem. Exemplo disso está logo na introdução, quando JC compara a mentalidade de grande parte do povo de então (os texto são das décadas de 1970 e 1980) com um coador invertido, por força e vontade dos regimes militares, fazia com que o macarrão escorresse e só ficasse para o povo a água morna,
Os textos do livro são divididos em duas seções: “Del exilio com los ojos abiertos” e “Del escritor de dentro y de fuera”; o próprio JC explica em sua introdução: “(…)la primera serie toca esencialmente al exilio como eje y motor de una denuncia constante de los crímenes de la junta militar; la segunda —se trata muchas veces de informes leídos en congresos, colegios universitarios y tribunales internacionales— enfrenta más directamente las obligaciones de un intelectual en este momento de la historia latinoamericana. Poderia falar de todos, mas seria uma tarefa longa e não faria justiça à profundidade dos textos, então prefiro dar uma visão geral do livro, seguido de comentários sobre algum ou outro texto que me chamou mais a atenção.

Apesar de, vez ou outra, toparmos com algum texto mais complexo, em geral os escritos desse livro são bastante compreensíveis. Até porque, como Cortázar reitera durante boa parte dos textos, é essencial que a revolução, que as mudanças, falando de maneira mais ampla, não sejam apenas algo discutido entre os intelectuais, mas que seja transmitida para o povo em geral, para que possam ser implementadas, não apenas servirem de objeto de análise teórica.

Algumas ideias que Julio discute e que me parecem dignas de contar como pontos altos do livro são: “(...)historia no tanto como mero pasado sino como preparación y previsión del futuro”; pensamento crítico sobre a linguagem como instrumento de revolução (reflete, por exemplo, sobre o uso que se fazia de “grandes palavras” – liberdade, pátria etc. – sem que se sentisse o que elas realmente significavam); visão do leitor como “una confusa mezcla de inteligencia, sensibilidad, inserción histórica y política, autenticidad y alienación, pregunta y espera, silencio o clamor”; literatura como instrumento atuante da revolução (“escribir y leer es cada vez más una posibilidad de actuar extraliterariamente”); retórica vazia (“[...] que nuestro diálogo esté limpio de toda retórica, que sus acuerdos o desacuerdos sean el resultado de haber mirado de frente nuestra realidad en vez de envolverla en los sacos de plástico de las frases hechas, de las fórmulas estereotipadas y de los prejuicios”); condições dialéticas (“[...]todo buen diálogo debería partir de una cierta paridad cultural, de un conocimiento recíproco por parte de sus protagonistas”); incapacidade da população dos países sob regime ditatorial em perceber os efeitos dos esforços de libertação feitos pelos exilados e órgãos internacionais, devido a barreiras impostas pelos regimes...

A lista é grande, e não vale a pena detalhar ainda mais sob o risco de tirar as surpresas do leitor que, depois deste texto, quiser ler o livro. Mas para os que ainda acharem que o livro é “muito sério” e “muito chato”, – ainda acharão isso depois de saber que Calac e Polanco protagonizam um dos textos? – resta a argumentação de um pequeno texto que aparece no início de algumas edições do livro (não sei se de autoria de Saúl Yurkievich, que tomou parte no projeto, ou de alguma outra pessoa): “Firmados por Cortázar, no son ni políticos ni literarios: son textos de Cortázar, fieles a una concepción ética de la vida. Y nada más”.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Obra crítica 3

Capa da edição atual, da Civilização Brasileira

            O leitor de Cortázar que, como eu, deixar para o fim da lista de leituras cortazarianas o volume 3 de “Obra crítica” agirá bem. Não porque esse livro seja, digamos, a cereja do bolo da produção do Julio; longe disso, aliás: é uma leitura por vezes cansativa e vez que outra até enfadonha. Mas porque “Obra crítica 3” é um livro que abarca vários aspectos não só do intelectual, mas do homem Julio Cortázar. E é isso que torna a leitura ao mesmo tempo difícil e enriquecedora.

            O volume começa com a clássica carta a Roberto Fernández Retamar sobre a situação do intelectual latino-americano, seguida de alguns textos sobre polêmicas (mais especificamente, sobre o caso Padilla e a entrevista de David Viñas que contém críticas a Cortázar). Em seguida, temos um belo texto chamado “Neruda entre nós” em que Cortázar avalia, com extrema beleza e extremo lirismo, a importância do poeta Pablo Neruda para a América Latina. É muito bonita a imagem que Cortázar nos mostra, segundo a qual foi a partir da escrita de Neruda que a América Latina começou a conhecer-se e definir-se por si mesma, sem se apoiar em critérios e imagens vindos de fora.

            Na seqüência, alternam-se textos sobre política e literatura: reflexões sobre o status da literatura e do intelectual, resenhas de livros, uma reflexão sobre o exílio como fator influente na produção literária. Um dos melhores textos dentre esses é, na minha opinião, é “Uma morte monstruosa”, sobre o poeta salvadorenho Roque Dalton, assassinado por compatriotas de visão política diferente da sua.

            Aliás, os melhores textos de “Obra crítica 3” são aqueles em que se pode sentir a proximidade emotiva de Cortázar ao autor ou personagem de que fala. Roberto Arlt, Felisberto Hernández, Ezequiel Martínez Estrada e Samuel Pickwick (além dos já mencionados Neruda e Dalton). Cortázar aproxima todos eles de nós, de forma que quase sentimos como se nós também fizéssemos parte dessas resenhas ou notas introdutórias a edições das obras. A apologia ao Pickwick de Dickens tem todo o frescor de uma juventude que Cortázar ainda mantinha aos 67 anos.

            Encerram o livro alguns discursos para congressos e encontros de intelectuais, entremeados pelos textos da série “Nicarágua por dentro” (presente em “Nicarágua tão violentamente doce”) e por um pequeno texto cheio de força chamado “Novo elogio da loucura”, sobre a luta das mães da Plaza de Mayo para saber a verdade sobre o destino de seus entes queridos desaparecidos durante o regime militar argentino.

            É por essa pluralidade de temas que recomendo que este livro seja lido depois de muitos outros de Cortázar: para que, de certa forma essa pluralidade de temas e de abordagens sirva de resumo da maneira como Cortázar sempre encarou a vida: múltipla e jamais reduzível a somente um ou outro aspecto, mas conjugando todos.

domingo, 10 de outubro de 2010

Obra crítica 2

Capa da edição atual, da Civilização Brasileira

            Se a obra crítica do Cortázar me infundia certo receio e por isso eu protelava a leitura desses textos (como expliquei anteriormente), “Obra crítica 2” era, de todos os volumes, o que mais me deixava receoso. Isso porque ele não é tão curto quanto o volume 1, e ainda mantém resquícios daquele Cortázar mais intelectual e menos sentimental, sensitivo. No fim das contas, não foi tão complicado quanto pensei que seria, mas mesmo assim esteve longe de ser fácil.

            O conteúdo do volume 2 é bastante diversificado: resenhas de livros, textos extensos sobre importantes figuras literárias (que influenciaram Cortázar, inclusive: Poe, por exemplo), textos teóricos (“Para uma poética”, “Alguns aspectos do conto” etc.). Comento, a seguir, o que mais me chamou a atenção.

            Os textos sobre Rimbaud, Keats e Poe dão uma amostra de como Cortázar conseguia se aprofundar não só na obra, mas no próprio clima, no sentimento basilar das obras dos escritores que admirava. É impressionante a análise que ele faz da urna grega em um poema de Keats, assim como também é surpreendente a quantidade de dados que conseguiu levantar para nos trazer um vivo retrato da biografia de Poe. O texto sobre Poe também impressiona pela sua capacidade de nos deixar fascinados pelo autor de “O corvo”. Terminada a leitura desse texto, parece que Cortázar conseguiu nos fazer admirar Poe tanto quanto ele próprio admirava.

            Entre todas as resenhas que faz, algumas me pareceram especialmente tocantes, me fazendo ter vontade de conhecer as obras a fundo, para poder compartilhar com ele seu sentimento de maravilhamento: a de Devoto, a de Marechal, a de Victoria Ocampo e a de Buñuel (especialmente essa última, com sua brutalidade; o texto sobre o filme de Buñuel me lembrou um pouco “Apocalipse de Solentiname” ou “Grafitti”).

            Nos textos teóricos é onde se vê a maior diferença em tom entre aqueles escritos no início do período coberto por este volume 2. Por exemplo, “Notas sobre o romance contemporâneo” (datado de 1948) é muito mais acadêmico do que “Alguns aspectos do conto” (de 1962-1963), em que Cortázar nos conta até uma anedota.

            Para terminar, se pode dizer que, no conjunto, é um livro que tem tudo o que caracteriza o melhor de Cortázar (mesmo que isso só fique mais claro lá depois da metade do livro): existencialismo, surrealismo, bom gosto literário e complicações suficientes para exigir do leitor uma postura mais engajada na leitura.

sábado, 9 de outubro de 2010

Obra crítica 1


Meu amigo e colega Théo Amon conta que uma vez teve um sonho do qual eu participava, junto com Antônio Sanseverino, nosso ex-professor de Literatura Brasileira. No sonho do Théo, o Antônio e eu conversávamos às gargalhadas sobre literatura e chegávamos à conclusão de que todo crítico literário seria viado (sic, no sonho).

Quando o Théo me contou esse sonho eu achei engraçado, não só pelo inusitado de se sonhar uma coisa dessas, mas também porque o sonho tem lá uma pontinha de verdade... eu nunca tive lá muita simpatia pelos críticos literários – aquela velha história: quem sabe faz, quem não sabe, critica. Sem contar que eles sempre me pareceram técnicos demais, faltando no trabalho deles toda a beleza que tem na literatura.

            Meu objetivo quando comecei essas resenhas/críticas/análises dos textos cortazarianos era comentar apenas os que já estão publicados em português; mas foi comentando um em espanhol aqui, outro de entrevistas ali... parecia mesmo que eu estava “fugindo” desses últimos livros nacionais que faltavam ser comentados. Sabendo disso, fica fácil entender por que deixei para o fim das possibilidades de leitura a leitura da obra crítica dele.

            A obra crítica de Cortázar foi publicada em três volumes: Obra crítica 1: Teoria do túnel; Obra crítica 2: textos críticos anteriores a “O jogo da amarelinha”; e Obra crítica 3: textos críticos posteriores a “O jogo da amarelinha”. A organização de cada um dos volumes ficou a cargo de um estudioso (e amigo) de Cortázar.

            Obra crítica 1 ficou a cargo de Saúl Yurkievich e inicia com dois textos dele: o primeiro, mais curto, apresenta a coleção e o segundo apresenta o volume, especificamente. Depois há o texto per se.

            Apesar de ser um texto razoavelmente curto (umas oitenta páginas), não é uma experiência de leitura fácil: Cortázar tinha menos de quarenta anos quando concluiu o livro, mas já demonstrava a perspicácia, a inteligência e a clareza de pensamento características de um autor maduro. Não faltam referências literárias e extra-literárias: mitologia, movimentos culturais, cinema, literatura...

            O objeto central de estudo do livro é o romance, técnicas e maneiras de encará-lo. Cortázar discorre sobre o Surrealismo e o Existencialismo e argumenta que na união dos dois o romance pode fortalecer-se.

            Ainda que o livro seja maçante às vezes, Cortázar não era um crítico, um teórico, mas sim um escritor que criticava e teorizava; por isso, ao longo do texto nos encontramos com trechos de brilhante beleza e lucidez, como:


"(...) louvado seja o impossível quando impede a passagem da facilidade e dessa ordem que é a morte (...)" (pp. 87-88)

"(...) literatura como ‘história do espírito’ (...)" (p. 97)


            Ok, não se pode dizer que Cortázar seja o típico crítico literário, mas é certo que seu livro, apesar de meio complicado, eleva a reputação dos críticos (pelo menos no meio conceito).

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Nicarágua tão violentamente doce

Capa da edição da Brasiliense


Composto por 15 textos e uma foto, “Nicarágua tão violentamente doce” relata as experiências vividas por Cortázar nesse país da América Central ao longo de oito anos, de 1976 a 1983. Nesse período, a Nicarágua viva o fim de um regime ditatorial e o início da reconstrução democrática do país, então se pode imaginar o quão político os ensaios, crônicas e outros textos do livro são. A leitura será mais compreensível se o leitor buscar, antes de começá-la, informações sobre o regime somozista e a revolução sandinista.

            Os primeiros escritos do livro são um pouco chatos, porque Cortázar faz pouco mais que enaltecer a revolução e condenar o regime de Somoza, parecendo proselitista, às vezes. Aqui, ao contrário da maioria das outras coisas que escreveu, não há dúvida, não há o subjetivo. Sendo ele admirador de revoluções (da Cubana e de seus líderes, por exemplo) e do socialismo, e sabendo-se que ditaduras são invariavelmente tempos de terror, não é de se surpreender. Mas, nesses primeiros textos, falta o lado humano do povo, parece, ficando acima de tudo o ideal, a revolução per se. O que é uma pena, porque Cortázar sabia escrever muito bem sobre o aspecto humano. A exceção é o primeiro texto, “Apocalipse de Solentiname”, escrito ainda durante o regime somozista, que poderia parecer (e pareceu, como confirma o texto seguinte) ficcional, um conto. Aliás, um conto como os melhores do autor. Isso porque ele mostra outro aspecto da realidade, que não deixa de ser a mesma, além do aspecto retratado nos outros textos do livro (a vida cotidiana, a reconstrução do país, a luta pela vida). Não que eu esperasse um Cortázar do Fantástico aqui, mas sempre espero dos livros dele algo além do real ,do que os sentidos percebem e as emoções comunicam.

            Já no fim do livro, temos textos melhores. “Retorno a Solentiname” é o texto em que há uma ponta daquilo que senti falta nos primeiros textos do livro: a vida além da revolução, as coisas que nos acontecem e que nos surpreendem, e fazem da vida uma surpresa. Em seguida, “O escritor e sua atividade na América Latina” é um texto bastante consciente mas não excessivamente político sobre a função que o escritor deve exercer em termos de revolução, social e literária. Uma postura bastante louvável contra o isolamento dos intelectuais.

            Enfim, “Nicarágua tão violentamente doce” é um livro mais político que literário, mais social que ontológico. Para mim, seu maior mérito é retratar experiências e crenças sócio-políticas do autor.