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terça-feira, 3 de julho de 2012

Negro el 10

Capa de Obras Completas, volume IV: Poesía y poética


                O problema aqui já começa com escrever o título do livro. “Negro el 10” ou “Negro el Diez”? O número 1 da Revista de la Universidad de México, por exemplo, diz, no sumário, “Negro el Diez”. Mas o texto em si está intitulado como “Negro el 10”. De maneira que não sei bem o que fazer… Acho que vou adotar “Negro el Diez” pelo simples fato de contradizer a edição dessas incompletas “Obras Completas”, que não farão valer seu nome até sabe-se lá quando…
                Tanto essa edição digital, como a edição dentro das Obras Completas, não trazem as ilustrações que deram origem ao texto cortazariano. O que eu acho uma pena, porque Cortázar sempre foi um cara multimídia, mesmo dentro de sua própria mídia específica, a escrita. (Aliás, se a Galaxia Gutenberg deixou as imagens em “Un Elogio del 3” pro achar que elas dialogavam com o texto, porque tirar as de “Negro el Diez”?)
                Poucas são as considerações que posso fazer sobre o livro, por causa da já mencionada ausência do material visual e porque é bem curto: dez conjuntos de versos, um para cada ilustração. A o primeiro desses conjuntos já tem algo que vemos muito nos textos do Julio: jogos de palavras: “(…) por no ser. Por ser no”.
                O texto apresenta os traços negativos do negro, da escuridão: a tormenta, o ódio, o ciúme. E contrapõe com uma imagem positiva: pai profundo, retorno ao começo, palavra do silêncio. E, claro, seria de se estranhar se Cortázar não fizesse a relação Negro → Noite.
                No fim, exalta a escuridão, com a seguinte bonita imagem:
    “trampolín desde donde saltan los colores, su callado sostén.
     Todo es más contra el negro; todo es menos cuando falta.”

     E encerra simples e total:
    “Tu sombra espera tras de toda luz.”

quinta-feira, 15 de março de 2012

Le Ragioni della Collera

Estojo de Obras Completas, volume IV: Poesía y poética

“Julio Cortázar, contista argentino do gênero literário do Realismo Fantástico”. Quantas vezes já lemos isso por aí? Não que seja mentira, mas está longe de ser a verdade. Para começar pelo fim, o rótulo literário é muito restritivo!  Realismo fantástico, é? Com “Rayuela” já botamos abaixo tanto isso do Realismo Fantástico como isso de contista – seu livro mais famoso e laureado é um romance e não tem muita coisa típica do Realismo Fantástico . E, apesar de se considerar argentino, Julio, que nasceu na Bélgica e depois recebeu a cidadania francesa, era na verdade um cidadão do mundo. Sua casa era em qualquer lugar em que pudesse refletir sobre a existência humana.
Mas, para mim, o principal erro dessa afirmação parece mesmo ser isso de “contista”. Teatro, romance, textos políticos, poesia. Poesia! Me digam aí se Julio não é, acima de tudo, poético. Mesmo a sua prosa tem muito de poesia: a sonoridade, os parágrafos quebrados para dar o ritmo… Não se escandalizem, mas estou cada vez mais propenso a ver Julio, acima de tudo, como um poeta.
Acabo de reler, para fazer este texto, “Le Ragioni della Collera”, (na verdade, sua edição “enxuta”, sem os textos que já aparecem em “Salvo el Crepúsculo”, dentro da coleção Obras Completas), e achei um de seus melhores livros de poemas. Talvez o melhor. Não sei o quanto dessa predileção por “Le Ragioni della Collera”, em detrimento de outros “poemários”, não é responsabilidade do leitor mais experiente que sou agora. Mas, de qualquer maneira, é um ótimo livro, que desautoriza Julio, que nunca acreditou muito na qualidade dos seus versos.
O livro abre com uma carta aberta de Cortázar a Gianni Toti, tradutor dos poemas para o italiano (que, inclusive, escolheu o título do livro), em que JC Cita sua produção de poemas, mas diz que “nunca pensé en publicar” (exceto “pecado de juventude en forma de sonetos”; ou seja, o livro “Presencia”). O método de composição do livro foi meio cronopial: Julio deu a Gianni alguns poemas, para que escolhesse traduzir alguns, mas Gianni traduziu todos, surpreendendo Cortázar. Alguns entraram, outros saíram, mas foram basicamente os poemas que JC deu a GT que estão no livro.
Um dos poemas mais sensacionais aparece logo nas primeiras páginas. Chama-se “Se le lengua la traba”. Vale a pena reproduzir inteiro, porque é sensacional. Uma obra-prima desse admirador de palíndromos e jogos de palavras:

Se le lengua la traba

Cuando oigo decir de una lectura que
tiene el hábito de la persona, me siento
pensado a inclinar bien de ella.

AVELLÁS NICOLANEDA
Mueven las ganas y blancan
en dos jugadas. ¡La fresca que repausa!
Salgamos todos a cazar
los rinopótamos y los hipocerontes. Pero, ay,
tanto va el rompe a la fuente
que al fin se cântaro…
¡ ¡La trata quiere saber de lo que se puebla! ¡ (Cabildo
del grito abierto.) Sí, en los niños
los únicos argentinos son los privilegiados. Pues esta tierra
no estuvo nunca atada a la bandera
de ningún vencedor de carros. Y Noble
nos puso como a un dios sobre un tábano despierto
para picarlo y tenerlo caballo.

(Usted empieza cuando el espectáculo llega,
de manera que mejor
que no te hermás, metano.)

Alguém aí lembrou do capítulo 18 de “Rayuela” e seu “Aldley Huxdous”? “Avellás Nicolaneda” ficou ótimo!
(Acabo de descobrir, no artigo “Habla coloquial y lengua literaria en las letras argentinas”, de Rodolfo Borello, que o livro chegou a ser publicado em espanhol, com o título de “Razones de la cólera”, entre 1950 e 1951.)
Os dois (curtos) poemas seguintes, me parece, focam na estranheza. “Tan inútil todo”, na estranheza de se ver distante dos outros: enquanto os filhos estão felizes, o pai olha para as colheres ou um torrão de açúcar. Em “Zoo” a estranheza é de si mesmo: os órgãos são animais, que andam pelo corpo, e têm por “bestia máxima” o coração.
Temas históricos e religiosos aparecem aos montes. “Juana ante su señor” (poema forte, duro, com tom de desalento), “Los iconoclastas” (a destruição das representações negativas), “La empusa” (criatura da mitologia grega) , “Voz de María” (que apresenta a voz da mãe de Jesus sobre a crucificação) e “Último círculo”, poema intenso, complexo, com referências clássicas, que nos dá o belo trecho:

                        Esto que llamo mi alma
tienta el espacio como una copa de árbol

Alguns outros versos soltos, porque já estou cansado de escrever tão linearmente:

Espejo feroz, ¿es necesario que me tires a la cara
la copia de este mundo?
(“Los espejos la tiranía”)

En realidad lo importante es lo que no hicimos
(“Nos hemos visto antes en alguna parte”)

cómo asir esa sombra de tu vida que en mi memoria pasa
(“Cura de espantos”)

Os mortos são tema de dois poemas: o primeiro é “Réquiem”, para Bosie, amante de Oscar Wilde; doce homenagem, bonito poema (como curiosidade, o poema cita os fios da Virgem. “Pero los hilos de la Virgen se llaman también babas del diablo”, diz em certo conto…). O outro, que fecha o livro, é “La abuela”, escrito para sua avó:

Te veo y soy pequeño y soy yo mismo, y nada impide que el pequeño y el hombre te den el mismo beso y se refugien en tu abrazo.
(...)
Y el primero que muera sabrá que nada muere
y que la perfección reinó en su día.

O universo da morte também aparece em “La lección”, se mesclando com o mundo do sono e dos sonhos.
Outros poemas dignos de nota são “Viaje y vivo retorno” (o tema da transição ôntica: “no beber te, beberse te”), “Discurso del método” (bonito poema, em que se quer que a memória não falseie os fatos), “Crónica” (antes a morte do que uma existência em que é preciso aval de um doutor para ser beijado e em que todos os doces são cobertos de sal), “El huésped” (curiosa construção; estrofes com parênteses e sem parênteses alternadas), “Rue Montmartre” (poderosa descrição da chuva como algo podre – ainda assim, é simpática) e “Nocturno”, que tem alguma semelhança com “62. Modelo para Armar”:

es despertarme a plena noche, barrido
por un viento que nace de tu pelo
dormido junto a mí, tan lejos

Por fim (prometo que já estou acabando, não se desesperem), quero comentar “Entre esto y aquello”, um dos mais intensos poemas do livro. Trata-se de um poema sobre o espaço
el espacio
cuchillo de cristal

 sobre o vazio
                               que me vacía los bolsillos me roba las ciudades

sobre o qual Julio decreta:
                         espacio
 cáncer de lo uno                           

Se você que me lê quer começar a descobrir os poemas de Julio Cortázar, talvez deva começar por este “Le Ragioni della Collera”, por sua diversidade e por sua qualidade indiscutível.

sábado, 6 de agosto de 2011

Imagen de John Keats

Capa de Obras Completas, volume IV: Poesía y poética



                Sempre que termino de ler algum livro do Cortázar, fico com a sensação de que gostaria de falar sobre a obra com o próprio Julio. Não para pedir explicações – acredito que ele diria que isso é coisa de lector hembra e que é preciso que cada leitor seja ativo no processo de criação do seu entendimento do conteúdo do livro –, mas para que me ajudasse a comentar o livro, nesses textos que escrevo aqui no Morellianas e que já desisti de tentar classificar.
                Suas obras são complexas (o que não significa chatas) e multifacetadas (o que não significa incongruentes), exigem bastante do intelecto e estimulam muito a sensibilidade. Por isso, um texto como este é um exercício de poder de síntese e da capacidade de conciliação de estímulos diversos.
                Em todos os outros livros que comentei aqui, essa vontade nunca foi tão grande. Eu gostaria de falar diretamente com Julio e perguntar: “Che, o que eu faço, hein? Tu me botou numa bela complicação com esse ‘Imagen de John Keats’”. Além de levar ao seu máximo todas as dificuldades que já citei, tem ainda o fato de que Keats foi um dos escritores favoritos de Cortázar e me arrisco a não conseguir passar aqui as ideias e sentimentos que JC expressa por JK. (É mais ou menos como se no futuro alguém fosse fazer um texto sobre meus escritos para o Morellianas. Imagine como o cara se sentiria, com receio de bagunçar minhas ideias sobre o autor com quem mais me identifico...)
                Os que gostam muito de classificar as coisas (famas... tsc, tsc) terão problemas com “Imagen de John Keats”. É uma autobiografia de Julio com a presença frequente de John? É uma biografia de John com uns momentos autobiográficos de Julio? É uma poética de Keats? É a poética do próprio Cortázar? É uma coletânea de poemas diversos, de Cortázar, Keats e outros muitos poetas? Um almanaque ao estilo “Último Round” ou “A Volta ao Dia em 80 Mundos”?
                O próprio Cortázar anuncia isso no início das mais de 500 páginas de “Imagen de John Keats”, em sua “Declaración jurada”:
                “Un libro romántico, aplicado a su impulso y a su tema con fidelidad de girasol. Es decir, un libro de sustancias confusas, nunca aliñadas para contento del señor profesor, nunca catalogadas en minuciosos columbarios alfabéticos. Y de pronto sí, de pronto ordenadísimo, cuando de eso se trata: también al buen romántico le llevaba un método el hacerse la corbata a la moda del día.”
                Acho que resultaria plenamente inútil que eu tentasse escrever este texto como escrevi os outros: tentando dar uma visão geral e em seguida passando a comentários menores sobre todas as coisas interessantes que encontrei pelo caminho de leitura. Isso seria inútil porque o livro é todo interessante; em cada página encontra-se algo que impressiona, diverte, maravilha...
                Fiz mais de dez páginas de anotações e agora que chega a hora de usá-las me dou conta de que duas coisas poderiam acontecer: ou as anotações se tornariam vazias, não significando muito para quem não leu o livro, ou acabariam estragando as surpresas de quem ainda pretende lê-lo. Como diz o próprio Julio Cortázar lá pela página 856 dessa edição que li “toda reseña es otra cosa”.
                Quase duas laudas já escritas e me dou conta de que não falei quase nada sobre “Imagen de John Keats”. Bem, vou fazer o melhor com as anotações mais destacadas que tenho (destaco com o sentimento mais do que com a razão, o que, de certa forma, já é uma boa aproximação ao livro).
                É um livro bem Cortázar, com quebras de parágrafo ajudando na composição das ideias; com a declaração, logo no início, de que o livro “responde a la mayor libertad posible de expresíon”; com um primeiro texto que se fecha muito cortazarianamente:

“Y com esto, librito, ábrete a los juegos.”

                O que Cortázar pretende, e anuncia também logo de início, não é uma biografia, não é um estudo teórico (embora, no fim das contas, acabe sendo um pouco disso e muito mais). “Simplemente me divierte ir paseándome por mi memoria, del brazo de John Keats, y favorecer toda clase de encuentros, presentaciones y citas”, escreve, deixando claro que nem por ser sobre um autor clássico  livro vai ser espaço para academicismos exagerados. E completa: “Voy del brazo de Keats, actitud más natural para conocerlo que la otra tan frecuente, en que al pobre lo izan en una nube mientras el crítico junta mesas y sillas para armarse una plataforma que no hacía la menor falta”.
                Aos poucos, sem uma linha cronológica, com muitas idas e vindas (temporais, temáticas etc.), Julio traça um perfil de Keats. Um perfil em que os leitores mais assíduos de Julio verão muitas semelhanças com o perfil de Cortázar. Um exemplo é quando há a seguinte citação de John, sobre Byron: “él describe lo que ve, yo describo lo que imagino”. Essa frase bem poderia ser de Julio, não concordam?
                 As páginas do livro que não são dedicadas a John (pelo menos não diretamente) também são ótimas. Como “Fotomatón del poeta”, espécie de retrato instantâneo (daí o nome do texto) do homem da poesia, que à primeira vista soa como crítica demolidora (“Los tipos son desagradables” diz Julio) é na verdade um grande reconhecimento a esses homens que estão à margem, porque, conclui Julio, “no se puede ser agradable sin formar parte del cuadro”.
                É interessante ver como Julio parece entrar na vida de John, como no trecho em que imagina como foi a adolescência do poeta inglês:
               
                “(...) habrá sido turbia como todas, con malos sueños y
solitarias compensaciones, con desesperada
ansiedad de pureza y amores de llorar a gritos, de
desnudarse ante un espejo y apoyar suavemente un
cuchillo en la piel que enguanta el corazón,
y necesitar de la muerte, tan seguro de que luego será
hermoso irse a pasear y tener un hambre de lobo,
y nombre murmurados contra el falso vientre de una almohada, monólogos como el oboe de Tristán, obscenas ilusiones, medianoches de frente ardida, entre-
                gado delicadamente a la lengua de las estrellas (…)”

                Esse trecho já é bastante impressionante, mas o retrato de toda a vida sentimental de John (em especial com Fanny Brawne) ainda aumenta a sensação estranha de que estamos lendo um romance escrito por Cortázar, não uma aproximação baseada em dados biográficos difusos que Cortázar leu em vários livros sobre John e em sua correspondência.
                Quando estamos muito instalados na Inglaterra de Keats, Cortázar nos traz de volta com um parágrafo no presente da escrita, em que conta, por exemplo, que o verão vai embora e que se despediu dele às margens do Tigre (rio da Argentina), atento aos insetos e sem saber dos jornais, o que era uma maneira de se aproximar de John, da poesia da qual disse “Yo no sé de otra poesia más leal, mas honrada que la de John”, porque não explorava suas condições pessoais (assim como nunca o fez Cortázar, que falava de si ao falar da esfera exterior a si).
                (Uma coisa deve chamar a atenção de todos que leram “O jogo da amarelinha” antes de “Imagen de John Keats”: no fim da seção “Fin de jornada”, uma nota de rodapé diz que o leitor interessado em seguir imediatamente a fase final da vida de John pode saltar para o capítulo específico. Seria essa atitude uma avó da mecânica de saltos de “O jogo da amarelinha”?)
                Agora, reparem no seguinte trecho, em que Julio cita uma carta de John:

                “’Cada día me convenzo más de que el escribir bien sigue inmediatamente al hacer bien (…)’. (…) esta jerarquización de la acción y la escritura (…) prueba que para John su forma natural de acción es la obra escrita, sin vanas y vagas ideas de ‘actividad’”.

                Isso se assemelha muito ao que Cortázar expressava na época de seu envolvimento mais profundo com os regimes sociopolíticos na América Latina: que a escrita não deixa de ser ação, que é sua “ametralladora específica”.
                O capítulo em que estão as coisas que comentei nas últimas linhas é o mais denso, o mais complexo, mas também é o capítulo em que mais se vê a genialidade de Cortázar (embora seja quase certo que ele não gostaria de ser chamado assim). Uma prova disso, em “Poetica” (é o nome o capítulo) Julio explica por que as pessoas em geral tentam entender os objetos (“La conducta lógica del hombre procede siempre en el sentido de defender la persona del sujeto (...) Y si lo obsesiona conocer, es un poco por hostilidad, por temor a confundirse”) enquanto o poeta renuncia a se defender para experimentar a “outridão”, para “(…) sentirse a cada paso otro, de salirse de sí para ingresar en entidades que lo atraen”.
                Entre uma e outra reflexão tão teórica, quase acadêmica, Julio brinca para nos lembrar que o livro é de um cronópio: “La inevitable pedantería [dos trechos anteriores] es de las que lo hacen a uno odiarse todas las mañanas, a la hora del espejo y el cepillo de dientes”.
                Outro momento memorável do capítulo é a comparação (melhor seria dizer “analogia”, já que disso ele trata magnificamente em um trecho anterior) que Julio traça entre o poeta e o xamã. Vale a pena citar:

“Se dice que el poeta es un "primitivo" en cuanto está fuera de todo sistema conceptual petrificante, porque prefiere sentir a juzgar, porque entra en el mundo de las cosas mismas, no de los nombres que acaban borrando las cosas, etcétera. Ahora podemos decir que el poeta y el primitivo coinciden en que la dirección analógica es en ellos intencionada, erigida en método e instrumento. Magia del primitivo y poesía del poeta son, como vamos a verlo, dos planos y dos finalidades de una misma dirección.”

Mais adiante Julio completa a figura que faz do poeta: “hacedor de intercambios ontológicos” ; “el poeta significa la prosecución de la magia en otro plano, y, aunque no lo parezca, sus aspiraciones son aun más ambiciosas y absolutas que las del mago”; “Todo poeta parece haber sentido que cantar un objeto (un ‘tema’) equivalía a apropiárselo en esencia; que sólo podía irse hacia otra cosa o ingresar en ella por la vía de la celebración”. (Não queria povoar tanto assim o texto com citações, mas o próprio Julio me autoriza, confiram o início do livro.)
O fechamento do livro relata o fim da vida de Keats, e é singelo e íntimo, como deve ser um texto sobre alguém tão íntimo ao autor como seu autor favorito. Segue-se um apêndice, com pequenos textos sobre três textos “menores” de Keats – inacabados ou pouco reconhecidos pela crítica, dos quais me parece o mais interessante, por seu tom cômico, aquele cujo título Julio traduziu como “El gorro y lós cascabeles” (falando em traduções, na edição que tenho aqui, Aurora Bernárdez revisou as traduções feitas por Julio – mesmo JC tendo a intenção de revisar as traduções antes de publicar “Imagen de John Keats”, a revisão de Aurora não me agrada. Gostaria de ver como Julio traduziu originalmente os poemas, títulos e citações).
Para acabar (quem estará mais cansado? Eu, de escrever, ou vocês, de me ler?), duas citações : uma de Saúl Yurkievich (em “Nota a esta edición”) e uma de Julio – já abusei das citações, mas além do aval de Julio, tenho certeza que elas casam bem com o espírito deste meu texto.

“(...) libro romántico, de substancia confusa y efusiva, Cortázar se divierte paseándose por su memoria del brazo de Keats (…) [Keats] habita como el poema en el ahora, e incita a la visión directa, sin intención previa, a una absorción en vivo de las cosas, a convertirse en esponja fenoménica”. S.Y. (Esponja: imagem que Julio prezava muito)

“[“Imagen de John Keats” é] um belo livro, solto e despenteado, cheio de interpolações e saltos e grandes voos e mergulhos, um livro como os poetas e os cronópios amam”. J.C. (no texto “Toca do camaleão”, de “A volta ao dia em 80 mundos”, tomo II).

domingo, 24 de julho de 2011

Salvo el Crepúsculo

Estojo de Obras Completas, volume IV: Poesía y poética



                Dentre todos livros de poemas do Cortázar, “Salvo el crepúsculo” me parece ser o mais Cortázar e o menos livro de poemas. Eu disse “menos livro de poemas”, não menos poético. Aliás, bem pelo contrário.
                Isso porque, não sendo composto só de poemas, é o livro de poemas que dá a melhor noção sobre o que Cortázar achava da poesia. Alternam-se verso e prosa, que se comentam e se complementam. E tudo começa com uma nota que é bem representativa:

                                “Discurso del no método, método del no discurso, y así vamos.
Lo mejor: no empezar, arrimarse por donde se pueda. Ninguna cronología, baraja tan meszclada que no vale la pena. Cuando haya fechas al pie, las pondré. O no. Lugares, nombres. O no. De todas maneras vos también decidirás lo que te dé la gana. La vida: hacer dedo, auto-stop, hitchhiking: se da o no se da, igual los libros que las carreteras.
Ahí viene uno. ¿Nos lleva, nos deja plantados?”

Desde aí já se vê que a poesia é, para Cortázar, liberdade e aventura (como é ser caroneiro) e que o importante é começar por onde se conseguir, e depois vemos aonde vamos (o que é um consolo para quem, como eu, muitas vezes não sabe como começar).
Bem, depois que começa, “Salvo el crepúsculo” nos apresenta várias epígrafes entre os poemas: Marguerite Yourcenar, Haroldo de Campos, Franz Schubert, Joni Mitchell, John Keats, Octavio Paz, Isak Dinesen, “e por aí vai... e por aí vem...”, como diria Oliveira enquanto a Maga faz uma lista dos homens que já teve).
Será impossível comentar as centenas de textos do livro (não sou muito bom de estimativas numéricas, mas deve ser em torno de centenas, mesmo...), então vou comentar alguns que acho de maior destaque.
Em “Background”, prosa, iniciado pela genial frase “tierra de atrás, literalmente”, referindo-se ao título, Cortázar nos conta como a noite é importante para a sua escrita; explicando porque, desde a insônia até os sonhos, ela influencia e, ao mesmo tempo, é a fonte de suas linhas.
Seguem-se alguns poemas e então aparece “Para escuchar con audífonos”, texto até bastante conhecido, em que Julio discorre sobre duas paixões, poesia e música e, depois de nos explicar que certos sons sofrem uma espécie de atraso ou adiantamento quando escutados com fones de ouvido, diz:

“Cómo no pensar, después, que de alguna manera la poesía es una palabra que se escucha con audífonos invisibles apenas el poema comienza a ejercer su encantamiento.”

                Outro tema recorrente,  o tempo e seus descompassos, aparece em “Policronías”. Eis um trecho:

                               “Es increíble pensar que hace doce años
cumplí cincuenta, nada menos.

¿Cómo podía ser tan viejo
hace doce años?
Ya pronto serán trece desde el día
en que cumplí cincuenta. No parece
posible.
El cielo es más y más azul,
Y  vos más y más linda.
¿No son acaso pruebas
de que algo anda estropeado en los relojes?”

Na seção “Con tangos” temos, pelo que entendi, alguns poemas cortazarianos que foram transformados em tangos (não sei se isso aconteceu com todos os poemas dessa parte do livro). E a seção que segue, “Ars amandi”, é sobre o amor e o prazer. O que me chama mais a atenção nesta parte do livro são quinze poemas feitos para uma Cris (divididos em “Cinco poemas para Cris”, “Otros cinco poemas para Cris” e “Cinco últimos poemas para Cris”). Não tenho notícia de nenhuma Cris na vida do Julio, por isso os poemas me surpreenderam, já que são tomados de carinho.
Em “In itálico modo”, há poemas que não são exatamente em italiano, mas em algo que se parece; diz Cortázar, no início da seção, que são poemas mais preocupados com a sonoridade e com o ritmo. E soam, mesmo, muito bem.
“Grèce, Grecia, Greece 59” impressiona pelo poliglotismo: um poema escrito em três línguas (espanhol, francês e inglês), tendo por cenário a Grécia.
“La noche de Lala” é um belo, lindo, na verdade, capítulo excluído de “O livro de Manuel”. Talvez devesse ser parte de “Diário de Andrés Fava”, porque Julio escreve que seu autor foi Andrés. Em todo caso, conclui JC, depois de ter relido o texto, se encaixa muito bem em “Salvo el crepúsculo”, por sua poesia.
“La noche de las amigas” é um longo e meio caótico poema manuscrito; fala das mulheres de sua vida (tanto as reais como as imaginárias), como se estivessem todas reunidas em um encontro, “todas ellas dándose al juego de la noche, midiéndose y hablándose y queriéndose y burlándose, todo tan lesbiano sin serlo y siéndolo, todo tan de ellas como las había conocido o querido o solamente imaginado por una foto”.
“Notre-Dame la nuit” e “Los vitrales de Bourges” são dois poemas muito bonitos, o primeiro sobre o magnetismo exercido pela igreja de Notre Dame, e o segundo, muito bem executado, sobre os vitrais e a luminosidade que os atravessa.
Termino (já com medo de que alguém em acuse de prolixo ou de leviano; aqueles porque escrevi de mais, estes porque não escrevi sobre todos os poemas...) com um trecho do iníco de “Inflación que mentira”, que, acho, serviria bem para epígrafe de um conto ou romance (agora me falta só a ideia para o conto ou romance, portanto): 

“Los espejos son grátis
pero qué caro mirarse de verdad”

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Un elogio del 3

Capa de Obras Completas, volume IV: Poesía y poética

                Dizer que Cortázar era um cara bem heterodoxo (ou, muito mais ao estilo dele, um piantado) não é dizer nada novo. Mas se a gente tomar a coisa por um lado um pouco menos explorado, a afirmação pode ser mais precisa e muito mais interessante. Por exemplo, quantos “elogios” vocês já não viram por aí?
                Além daquele do Erasmo de Rotterdam, “Elogio da Loucura”, encontrei, numa busca rápida, vários outros livros chamados Elogio a alguma coisa: da traição, da beleza atlética, da corrupção, da filosofia, da loucura, da madrasta (bom livro do agora “nobelado” Vargas Llosa), da mentira, do silêncio (esse eu gostaria de ter escrito)... Elogios de coisas concretas ou abstratas, mas nunca um elogio como o que Cortázar escreveu: o elogio ao número três.
                “Um elogio del 3” é um livro-poema bastante curto, mas também bastante contundente e de grande qualidade, em que o três (não só o número, mas principalmente a quantidade, a figura, a simbologia do três) é louvado (“(...)três / que es musica y triangulo y escândalo”), tornando-se um elogio à vida e aos valores que Cortázar mais apreciava (“El hombre rebelandose y riendo contra El sudor contra la muerte”), lembrando até as ideias das individualidades que formam uma figura que é menos e mais do que elas (como em “Os prêmios”, por exemplo).
                O texto é ilustrado por imagens de barras coloridas: no princípio, uma, depois, duas e por fim, na maioria das páginas, obviamente, três. Coloridas: amarela, azul e vermelha.
                Pura poesia (linguística e visual). Puro Cortázar.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Pameos y meopas

Estojo de Obras Completas, volume IV: Poesía y poética

            Todos os livros de Cortázar precisam ser lidos com algo mais que o intelecto. É necessário contar com a sensibilidade, com a interpretação, com o senso de eufonia. Mas quando o livro é um livro de poesias, isso é ainda mais importante.
            Posso atestar isso porque não conheço o idioma espanhol suficientemente para ler um livro de Cortázar sem precisar de um dicionário. Mas no caso dos poemas, quando se presta atenção ao som, quando pomos nossa sensibilidade e esforço interpretativo juntos, tudo isso supera as dificuldades da língua e recria as imagens preciosas pensadas por Julio.
            “Pameos y meopas”, que já nos “testa” desde seu título brincalhão, é dividido em cinco partes: I – Larga distancia (París, 1951-1952), II – Razones de la cólera (Buenos Aires, 1950-1951; París, 1956), III – Preludios y sonetos (Buenos Aires, París, 1944-1957), IV – Cantos italianos (Roma, 1953), V – Grandes máquinas (Buenos Aires, París, 1950-1955) e VI – Circunstancias (París, 1951-1958). Comento, a seguir, alguns dos poemas que mais me chamaram a atenção e que mais me cativaram a afeição.
            O livro começa com uma nota (ou prólogo ou como queiram) de Cortázar, intitulada “Por lo demás es lo de menos”, datada de 1971 e em que já lemos um Cortázar preocupado com as questões sociais e culturais (cita até artistas brasileiros: Drummond de Andrade, Caetano Veloso e Glauber Rocha), reconhecendo que a poesia, a expressão poética e artística, mais amplamente, mudaram e que estamos em um tempo em que os grafitti e os happenings também são poesia. Um relato de, como se chama o próprio Cortázar nesse texto, “un argentino que todo quiso leer, todo quiso abrazar”.
            “Larga distancia” é, para mim, a mais bonita das seções do livro, com seus poemas em que o amor e saudade são os temas principais (“Todo mañana es la pizarra donde te invento y te dibujo” diz em “Poema”; em “Restitución”, declara: “En la memória llevo gestos, el mohín / que tan feliz me hacía (...)”). Chegam a ser tristes, melancólicos os poemas dessa parte do livro, mas, de qualquer maneira, muito bonitos.
            Em “Pavadas”, já em “Razones de la cólera”, vemos outro aspecto importante de Julio, o desterrado, o exilado, quando diz, depois de explicar que uma árvore cortada jamais enganará os pássaros, que:

Al hombre desterrado
no le hables de su casa.
La verdadera patria
cara la está pagando.

(Embora JC nunca tenha sido expressamente expulso da Argentina, sentia-se como se tivesse, porque não podia voltar lá com liberdade, nem sequer publicar seus livros na íntegra.)
            “Preludios y sonetos” começa com um poema que trata de outra questão cara a Julio: “El poeta” reafirma sua crença de que para fazer parte da luta não é necessário pegar em armas e que com seus textos ele também combate, porque nunca alienou suas obras do momento histórico em que eram escritas.
            O poema seguinte é “Tratado de sus ojos”, muito lírico e cândido, comparando um olhar a um oceano subitamente singra; e a seção termina com “Ronda”, poema cheio de estímulos sensoriais, com a presença frequente do aguaribay (uma espécie de aroeira, pelo que entendi).
            A parte IV, “Cantos italianos” tem poemas de estilo mais clássico, pelo menos em sua temática, como Menelau e os locais italianos.
            Como li “Pameos y meopas” na edição das Obras Completas, publicadas pela Galaxia Gutenberg, poemas publicados em livros anteriores não são repetidos; em vez disso, há uma referência às páginas que contêm esses textos (o que faz a gente pular como se estivesse lendo “O jogo da amarelinha”). Em “Grandes Máquinas”, seção que inclui poemas já publicados em “Salvo el crepúsculo”, há apenas três poemas, mas todos muito extensos, além de duas citações entre eles, uma de Faye Kicknosway (bem sinestésica) e outra de Dylan Thomas. “Notre-Dame la nuit” e “Los vitrales de Bourges” falam de lugares franceses pelos quais, parece, Cortázar tinha muito apreço e certa fascinação. Masaccio refere-se ao pintor italiano, o que me faz pensar que todos esses poemas têm relação com o sagrado.
            O livro fecha com “Circunstancias”, seção que conta apenas com dois poemas curtos, duas quadras; uma delas, “El sueño”, trata de um tema muito comum nas histórias de Cortázar: o mundo dos sonhos. Reproduzo:

El sueño

El sueño, esa nieve dulce
que besa el rostro, lo roe hasta encontrar
debajo, sostenido por hilos musicales
el otro que despierta.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Presencia

Capa de Obras Completas, volume IV: Poesía y poética


             Conto, romance, teatro, crítica, política, entrevista, prosa variada e inovadora. Posso dizer que já cobri quase todos os tipos de textos já escritos por Cortázar. Menos, até agora, um dos mais importantes para o próprio autor: a poesia.
            Em seus livros de entrevista, Cortázar sempre menciona a poesia, e fica claro que, ao longo da vida, mesmo depois de já ser amplamente conhecido por seus contos e romances, nunca deixou de escrever poemas, mesmo que muitos deles não tenham sido publicados em vida por conta de um alto senso crítico do autor.
            No Brasil, não há sequer um livro de poesias de Cortázar traduzido. Os poemas dele a que temos acesso são aqueles poucos (mas constantes, o que prova que Cortázar nunca parou de fazer poemas) que aparecem no meio de seus romances ou aqueles recolhidos em livros de sua chamada “prosa variada” (“A volta ao dia em oitenta mundos”, “Ultimo round” etc.).
            Sendo assim, foi em espanhol mesmo que li “Presencia”, livro de sonetos do autor, e o primeiro que ele publicou, sob o nome de Julio Denis.
            No final “Presencia” (pelo menos dessa edição que li, dentro do volume IV das Obras Completas) lê-se: “Bolívar, 1937/1938”, o que indica que os sonetos foram escritos quando Cortázar tinha seus 23, 24 anos, num período em que foi professor em escolas em províncias de Buenos Aires (além de Bolívar, também Chivilcoy). Daí se entende algumas características dos poemas apresentados em “Presencia”: certa ingenuidade, alguma rigidez temática, previsibilidade em algumas rimas etc.
            Não me interpretem mal, pouco entendo de poesia, especialmente de métrica; toda a comparação que faço é entre Cortázar e o próprio Cortázar, no caso, entre este “Presencia” e sua produção poética posterior, usando apenas minha intuição como referência. Tenho agora mais ou menos a mesma idade que ele tinha então e não posso dizer que faria versos melhores...
            Mas o livro tem qualidades e, até, já pressagia, por exemplo, a temática dos trens (em “En el tren” lemos: “y sin estar dormido voy dormido”, o que lembra um pouco as experiências de dilatação de tempo de Johnny em “O perseguidor”). E o que mais me chamou positivamente a atenção em “Presencia” é a força, o ímpeto de certas estrofes, de certos poemas inteiros, até. Com alto poder imagético, seus poemas falam do amor, de Cristo (pungente o retrato de Cristo na cruz que faz Cortázar) e, tema que sempre o interessou em suas produções posteriores, a existência. Exemplo perfeito é a penúltima estrofe do soneto II da seção “Sonetos a mí mismo”, com a qual encerro esse texto por não saber bem mais o que dizer:

“Por qué, por qué buscar, si nada existe
Que no tenga los sellos de lo vano
Y la triple coraza de lo esquivo;”