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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Os reis

Capa da edição atual, da Civilização Brasileira

            Que eu saiba, Cortázar produziu poucas peças de teatro, umas cinco no total. Quatro estão “Adeus, Robinson e outras peças curtas” e são de estilos variados e mais para modernas, tanto em temática como em forma de expressão. Bastante diferente nisso é “Os reis”, peça que completa sessenta anos de publicação em 2009 e é clássica tanto na forma como no conteúdo.
            As primeiras publicações de Cortázar possuem mesmo um estilo mais clássico do que outras porções de sua obra, mas talvez “Os reis” já o exemplo mais cristalino disso: nesse livro, Cortázar reconta o mito de Teseu e o Minotauro com uma beleza clássica nas falas dos personagens (aliás, convém conhecer um pouco a história da mitologia grega para saborear melhor o livro).
            Cortázar demonstra muito conhecimento, fazendo diversas referências histórico-mitológicas que podem até passar desapercebidas para quem só souber o básico da história do Minotauro. Embora a demonstração de conhecimento e erudição seja desestimulante em certas leituras aqui não é o caso, porque Cotázar não abusa dela e serve-se da mesma para dar um gosto arcaico ao texto – e aí de novo eu me vejo obrigado a falar em clássico.
            Claro que se fosse um clássico dos clássicos não seria um Cortázar. Mas aí é que está: este é um texto que pode se considerar como um dos mais clássicos de Cortázar (só agora me dei conta que pode não ter ficado claro o que quero dizer com clássico; entenda-se: aquilo que segue os padrões tidos como elevados). Um dos textos mais clássicos de Cortázar, mas ainda assim há a mudança do ponto de vista, o deslocamento até o centro do outro, a inovação no enredo.
            “Os reis” pode parecer, à primeira leitura, um livro bem comportado, mas nota-se nele indícios do grande cronópio, do grande buscador de novos caminhos, daquele Cortázar que quer romper com o velho, preservando o que dele é bom, e criar novos caminhos do labirinto, até por entre as paredes.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Adeus, Robinson e outras peças curtas

Capa da edição atual, da José Olympio


            Quando se fala em Julio Cortázar geralmente se fala de conto fantástico. É claro que essa é uma idéia generalizada da obra dele, que abarca muito mais elementos e, como já demonstrei em outras resenhas, pode até pender mais para o relato das relações humanas do que para o espanto do extraordinário. E não era só a temática do que escrevia que mudava, a forma que ele usava para expressar-se também variava. Por exemplo, em “Adeus, Robinson e outras peças curtas” reúnem-se quatro peças teatrais escritas pelo autor em diferentes épocas de sua vida.

            As duas primeiras peças se agrupam sob o nome de “Dois jogos de palavras” e são aquelas em que fica mais difícil encontrar algum tipo de metáfora com significado subjacente. Talvez tenha sido mesmo essa a idéia do argentino: expressar-se, sem ter compromisso com o social ou alguma outra causa. A primeira das duas peças, “Peça em três cenas” parece uma história sobre desencontros sentimentais, fugir daquilo que esperam de nós e de depois voltar a como éramos. Triste, de fato. A segunda é “A temporada das pipas”. Nela também há o estranhamento com os atos e falas dos personagens, mas em certos momentos há como uma lucidez, mais pungente porque vinda no meio da divagação, como no trecho em que Davi diz: "É bom ficar só. Aos poucos a gente começa a pensar. Não é fácil, porque a máquina costuma estar enferrujada. Mas aos poucos, primeiro uma idéia, depois outra, depois outra, depois uma ponte unindo as duas, a terceira passando por cima..." Nesta peça é mais fácil seguir o fio condutor dos eventos e algumas relações com a vida real (por falta de termo melhor para isso que vivemos) podem ser feitas, mas não sem risco de estarmos interpretando demais. Gosto da idéia de que Cortázar possa ter escrito essas peças dessa forma de propósito, para que ficassem mesmo muito abertas a interpretações.

            A terceira peça, em seguida, é “Nada para Pehuajó”. Escrita nos anos 70, a peça já mostra um Cortázar mais maduro, mais consciente, que parece escolher com mais cuidado as metáforas e alusões. A história pode ser simplesmente o que é ou pode ser mais, muito mais: uma crítica a instituições, à burocracia e até ao povo. Peça um pouco caótica, dada a quantidade bastante grande de personagens em cena, mas excelente.

            Fecha o livro o roteiro radiofônico de mesmo nome. Fã e profundo conhecedor da obra “Robinson Crusoé”, de Daniel Defoe, Cortázar propõe nessa peça a volta de Crusoé à ilha em que vivera durante anos. Acompanhado de Sexta-feira, o canibal que “salvara” e “civilizara”, Robinson vê-se surpreso em uma ilha que se modernizou muito e que já não mais reconhece como sendo “a sua ilha”. É a peça mais clara e mais facilmente compreensível do livro, desde que se tenha algum conhecimento da história do livro de Defoe. Uma bela e oportuna metáfora que é revelada ao fim do roteiro.

            Talvez a obra teatral de Julio Cortázar não seja muito extensa, mas é com certeza muito interessante, pela variedade de temas com que consegue lidar e pela maneira fluida com que os expressa.