quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Adeus, Robinson e outras peças curtas

Capa da edição atual, da José Olympio


            Quando se fala em Julio Cortázar geralmente se fala de conto fantástico. É claro que essa é uma idéia generalizada da obra dele, que abarca muito mais elementos e, como já demonstrei em outras resenhas, pode até pender mais para o relato das relações humanas do que para o espanto do extraordinário. E não era só a temática do que escrevia que mudava, a forma que ele usava para expressar-se também variava. Por exemplo, em “Adeus, Robinson e outras peças curtas” reúnem-se quatro peças teatrais escritas pelo autor em diferentes épocas de sua vida.

            As duas primeiras peças se agrupam sob o nome de “Dois jogos de palavras” e são aquelas em que fica mais difícil encontrar algum tipo de metáfora com significado subjacente. Talvez tenha sido mesmo essa a idéia do argentino: expressar-se, sem ter compromisso com o social ou alguma outra causa. A primeira das duas peças, “Peça em três cenas” parece uma história sobre desencontros sentimentais, fugir daquilo que esperam de nós e de depois voltar a como éramos. Triste, de fato. A segunda é “A temporada das pipas”. Nela também há o estranhamento com os atos e falas dos personagens, mas em certos momentos há como uma lucidez, mais pungente porque vinda no meio da divagação, como no trecho em que Davi diz: "É bom ficar só. Aos poucos a gente começa a pensar. Não é fácil, porque a máquina costuma estar enferrujada. Mas aos poucos, primeiro uma idéia, depois outra, depois outra, depois uma ponte unindo as duas, a terceira passando por cima..." Nesta peça é mais fácil seguir o fio condutor dos eventos e algumas relações com a vida real (por falta de termo melhor para isso que vivemos) podem ser feitas, mas não sem risco de estarmos interpretando demais. Gosto da idéia de que Cortázar possa ter escrito essas peças dessa forma de propósito, para que ficassem mesmo muito abertas a interpretações.

            A terceira peça, em seguida, é “Nada para Pehuajó”. Escrita nos anos 70, a peça já mostra um Cortázar mais maduro, mais consciente, que parece escolher com mais cuidado as metáforas e alusões. A história pode ser simplesmente o que é ou pode ser mais, muito mais: uma crítica a instituições, à burocracia e até ao povo. Peça um pouco caótica, dada a quantidade bastante grande de personagens em cena, mas excelente.

            Fecha o livro o roteiro radiofônico de mesmo nome. Fã e profundo conhecedor da obra “Robinson Crusoé”, de Daniel Defoe, Cortázar propõe nessa peça a volta de Crusoé à ilha em que vivera durante anos. Acompanhado de Sexta-feira, o canibal que “salvara” e “civilizara”, Robinson vê-se surpreso em uma ilha que se modernizou muito e que já não mais reconhece como sendo “a sua ilha”. É a peça mais clara e mais facilmente compreensível do livro, desde que se tenha algum conhecimento da história do livro de Defoe. Uma bela e oportuna metáfora que é revelada ao fim do roteiro.

            Talvez a obra teatral de Julio Cortázar não seja muito extensa, mas é com certeza muito interessante, pela variedade de temas com que consegue lidar e pela maneira fluida com que os expressa.

6 comentários:

  1. não me ajudou em nada

    ResponderExcluir
  2. Sinto muito, anônimo. Pelo menos os meus comentários eu assino, me identificando, e sempre que escrevo é com intuito de ajudar. Mas se você pode contribuir com um texto melhor para o Morellianas, fique à vontade para enviar sua contribuição.

    ResponderExcluir
  3. Eu to precisando de uma peça teatral curta para apresentar na escola, com o 5 personagens, sendo 2 meninas e 3 meninos.
    Não consigo achar nada, queria uma peça de comédia, porém todas que eu acho é grande e muitos personagens.
    A professora disse que a peça tem que ter no máximo uns 20 minutos...
    Mi ajuda.... Por favor!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Mi, deste livro do Cortázar, as peças mais curtas são "Peça em três cenas" e "A temporada das pipas". Não sei se se encaixam no conceito que você tem de comédia, mas acho que vale a pena dar uma olhada nelas. Acho que é possível executar em 20 minutos (e talvez cortar uns personagens para conseguir executar a peça com 2 meninas e 3 meninos).

      Se eu puder ajduar de algum jeito, deixe outro comentário aqui, ok?

      Abraços!

      Excluir
    2. Muito obrigada!
      Vou dar uma olhada sim!
      Eu estava desesperada, não tinha nenhuma ideia de fazer peça... mais vc mi ajudo.
      Brigadão!

      Excluir
    3. De nada! precisando, estamos aí pra ajudar. :)

      Excluir