sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Prosa do observatório

Capa da edição atual, da Perspectiva

Já expliquei, em meu texto sobre “O jogo da amarelinha”, a problemática de um texto que se proponha a avaliar um livro de Julio Cortázar. E se já é difícil avaliar um livro cujo conteúdo é claro de se definir (por exemplo, “Bestiário” é um livro de contos e “O jogo da amarelinha” é um romance – cortazariano, isto é, muito inovador, mas ainda assim um romance) o que se pode esperar de uma obra que não encontra iguais na produção de Cortázar?


“Prosa do observatório” é um enigma mais obscuro dentro do grande ponto de interrogação (tanto pelo que é como pelo que provoca no leitor) que é o conjunto da obra desse fabuloso escritor argentino.


Cortázar e sua primeira esposa viajaram, em 1968, para a Índia. Lá, ficaram na residência do então embaixador mexicano, Octavio Paz¹. Em Jaipur, conheceram o observatório astronômico construído por um sultão do século XVIII, Jai Singh. Cortázar, então, fotografou a fascinante arquitetura marmórea do local. Mais tarde, as fotos foram publicadas ilustrando um texto breve porém sinuoso: este “Prosa do observatório”.


É difícil definir um livro assim: com tantas páginas em que só há fotos quanto páginas escritas e quanto páginas vazias. Não é um conto, não é um romance, não é um ensaio, não é um álbum de fotos, não é um relato de viagem... Ou, por outra: é tudo isso e mais. É Cortázar.

As imagens são maravilhosas, não só pela forma das estruturas retratadas, mas também pelos pontos de vista escolhidos por Cortázar; algumas chegam a ser abstratas, convidativas à divagação. No texto, curto mas eloqüente, convergem e convivem estrelas e enguias, pesquisadores e astrônomo. A maravilha do livro, o seu inexplicável encantador, é como Cortázar consegue urdir essa relação-múltipla, como a harmoniza e a faz fluir ritmadamente.


O cuidado que se precisa ter, entretanto, ao ler o livro, é deixar-se flutuar na corrente dele, não tentar passagem forçada por entre suas partes complicadas e mais obscuras, aceitá-las, passar por sobre elas com calma e deleite, compreendendo que há sempre um mistério em enguias, estrelas, e livros de Cortázar.


¹Paz recebeu o Nobel de Literatura em 1990 e faleceu no ano de 1998. Cortázar publicou um texto sobre uma das obras de Paz (“Libertad bajo palabra”) em livro publicado no final da década de 70. Para detalhes, veja CORTÁZAR, Julio. Octavio Paz: Libertad bajo palabra. In: ROGGIANO, Alfredo (ed.). Octavio Paz. Madri: Espiral/Fundamentos, 1979. P. 107-109

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