sábado, 21 de agosto de 2010

Histórias de cronópios e de famas

Capa da edição atual, da Civilização Brasileira

“Histórias de cronópios e de famas” é um ótimo livro pelo qual começar a ler Cortázar, para ter um primeiro contato com o estilo de texto desse cidadão do mundo.

O livro começa, como todos os outros, pela capa (exceto os que já não a tem, mas um dia eles próprios já assim começaram). E a capa da atual edição é muito atraente, bonita, colorida. Predomina o verde, mas há tantas cores como em um caleidoscópio ou um cristal translúcido bem iluminado. Uma faixa preta à meia altura anuncia o sonoro título da obra.

Dando crédito ao livro, seja pelos elogios que alguém nos fez dele (ou que fizemos aos seus potenciais futuros leitores) ou por sua irisada capa, descobrimo-lo dividido em quatro partes, seções de diferentes de um mesmo todo, cada uma com seu particular sabor, mas todas temperos intensos: “Manual de instruções”, “Estranhas ocupações”, “Matéria plástica” e uma homônima do livro, “Histórias de cronópios e de famas”.

“Manual de instruções” tem um título que explicaria seu conteúdo por completo, não fossem as atividades às quais instrui serem incomuns de se ver em manuais: sentir medo, chorar, matar formigas em Roma (a propósito, o livro foi escrito em uma época em que Julio morava na capital italiana), dar corda em um relógio e subir escadas. A tudo isso Cortázar se dispõe a instruir o leitor, com uma fina ironia e uma crítica à automatização do ser humano; afinal, quem precisaria de instruções para subir escadas?

Em seguida, “Estranhas ocupações” relata as aventuras de uma família que gosto de ver como a versão cortazariana da Família Addams, tanto por suas esquisitices (um patíbulo no meio do quintal, perder cabelos só pelo prazer de encontrá-los) como pelo perigo das atividades (pousar um tigre certamente requer coragem) e, acima de tudo, pela simpatia e caráter inofensivo.

Segue-se “Matéria plástica”, cheia de um Cortázar variado e genial, fabulador e fabuloso. É a seção mais extensa e diversa; é onde se encontra um Cortázar a favor dos direitos das bicicletas e empático com as gotas que se agarram para não morrer. Textos inesquecíveis e marcantes por toda a seção.

Por fim, “Histórias de cronópios e de famas”. Essa é a seção mais simpática e encantadora do livro. São histórias que relatam comportamentos e hábitos de três tipos de criaturas saídas da imaginação de Cortázar: os cronópios e os famas do título e as esperanças. As últimas são em geral apáticas e não agem, deixam-se levar pelas ocasiões e as pessoas. Os famas são racionais, organizados e metódicos, mas não obrigatoriamente maus. Os cronópios são sinceros, alegres e desatentos e inocentes. Poderiam ser personagens de histórias infantis (além de tudo, Cortázar disse que são pequenos, minúsculos, e verdes), e de fato acredito que até crianças possam ler essas histórias, mas basta imaginar que cronópios, famas e esperanças são conceitos para classificar impunemente e de maneira bastante certeira, ainda que um pouco genérica, boa parte das pessoas do mundo. Quantos não conhecemos que verificam tudo em uma viagem; que nada fazem de suas vidas; se perdem e perdem as chaves de casa ou a noção do tempo mas são muito felizes com essa sua irreflexão?

Quando se fecha, então, a capa final do livro, revendo aquele verde, fica aquela sensação de querer mais encantamento, mais maravilha, mais sonho e de conhecer mais a obra de Cortázar.

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