domingo, 5 de setembro de 2010

Final do jogo

Capa da 3ª edição, da Expressão e Cultura


            “Final do jogo” reúne dezoito contos escritos em épocas diferentes, entre 1945 e 1962, entre eles alguns dos mais clássicos contos de Cortázar. É um número alto de contos para um livro do autor (leve-se em conta que “Todos os fogos o fogo” e “Armas secretas”, por exemplo, têm apenas cinco contos cada), mas em “Final do jogo” há muitos contos curtos, o que me agrada, porque acho que Cortázar consegue ser mais contundente em contos menores.

Dividido em três partes (simplesmente nomeadas I, II e III), o livro apresenta muitos contos no estilo que muitos tomam como o estilo padrão de Cortázar, o Fantástico – o que, pra mim, está longe de ser verdade.

            A parte I começa com aquele que talvez seja o conto mais curto, e certamente um dos mais geniais, de Cortázar. “Continuidade dos parques” tem uma história que de tão curta (nem três páginas inteiras) e tão bem engendrada será estragada se eu contar muito dela. Mas o enredo gira em torno de um homem que está lendo o final de um romance.

            “Ninguém tem culpa”, outro conto memorável desse livro, conta a história de um homem que veste apressado o seu blusão para sair à rua e encontrar a esposa e que, de repente, se vê preso no blusão, a meio caminho de vesti-lo e de tirá-lo, não conseguindo avançar nem em um sentido, nem em outro. Clima de tensão muito bem trabalhado em cima de uma situação cotidiana. Conto com simbolismos meio nebulosos.

            “O rio“, terceiro conto, me lembra um pouco um conto (ou um romance, não lembro ao certo) de Anaïs Nin. Narrado como se fosse um monólogo que procura dialogar com outro personagem, é sobre um casal que se desentende durante a noite e cuja mulher promete sair para se afogar no rio, mas não, ainda fica ali, como percebe o homem depois de pouco tempo.

            “Os venenos”, conto seguinte, é um dos meus favoritos no livro. É uma história narrada por um menino, que conta sobre seu mundo, suas brincadeiras, sua paixão pela menina do lado, o veneno que aplicam (o tio e ele) no jardim, para matar as formigas que grassam na casa. Uma história muito bem executada, a respeito do ciúme e da desilusão infantil – com a qual Cortázar se identifica, como conta em “Conversas com Cortázar”.

            “A porta incomunicável”, quinto conto, lida com um tema clássico do suspense: a audição de vozes. De viagem, hospedado num hotel, um homem acorda noite após noite ouvindo o choro de uma criança. A diferença no tratamento que Cortázar dá ao tema é que aqui o final nada tem de chavão. Um daqueles contos em que a gente se pergunta: psicológico ou fantástico?

            O último conto da parte I é “As mênades”. Conhecer as personagens mitológicas ajuda a compreender um pouco o conto, em que a música clássica, justamente ela, símbolo de civilidade e elegância, gera comportamento selvagem na platéia.

            “O ídolo das Cíclades”, primeiro conto da parte II, é sobre a descoberta de um ídolo antigo em uma ilha grega por um casal francês e um amigo argentino. Contrabandeado, o ídolo é a porta de entrada para que o inusitado ocorra no conto. Uma história que vai agradar aos que gostam dos textos de Cortázar sobre o Duplo.

            Em seguida, temos “Uma flor amarela”, conto metafísico, sobre a imortalidade dos seres humanos – contada por alguém que conheceu um homem que se declarava o único mortal e que lhe contara sua triste história. Um conto bonito, sobre a beleza da vida, embora seja triste muitas vezes.

            Terceiro conto da parte II e nono do livro, “Sobremesa” é um conto de fluxo temporal quebrado (eu até achei que as datas estavam escritas erradas quando li as primeiras páginas) e que não tem um final tradicional (me pergunto se a carta final foi enviada por concordância com o fluxo temporal do amigo recluso ou se por benevolência, como que para calá-lo e dizer “está bem, está bem”). Há um texto, “Notícias dos Funes” em “Último round” que ajuda a esclarecer o um fato não explicado no conto.

            Depois, “A banda” é um conto sobre os limites da realidade, um dos mais constantes temas de Julio. Um homem vai assistir um filme no cinema e, além dos noticiários e dos desenhos animados típicos de antes da atração principal da noite, tem de assistir a uma banda de mulheres de uma empresa tocar. O absurdo da situação, e outras percepções que tem, levam o homem a questionar aquilo que toma por realidade.

            “Os amigos”, outro conto curtíssimo, é um conto pouco decifrável além do que diz em suas linhas. Amizade e, parece, máfia (ou alguma outra organização), se misturam aqui.

            “O móvel” é um conto cuja relação do título com o enredo do conto eu ainda não entendi. De qualquer forma, fala de um homem que embarca em um navio para procurar o assassino de um amigo, mas que acaba não concentrando seu ódio devidamente nessa tarefa. Oura história em que o ciúme aparece.

            “Torito”, fechando a parte II do livro, é um conto sobre boxe, sobre a história e carreira do boxeador Luís Suarez “Torito”, narrado em primeira pessoa. Sua ascendência e queda, narradas com emoção pelo admirador de boxe que era Cortázar. Emocionante e tocante conto, ainda que um pouco triste.

            Abrindo a última parte (parte III), “Relato com um fundo de água” é uma história de amizade (e o fim dela) e suspense. Aqui os sonhos têm a capacidade do vaticino e há a sensação de que é difícil escapar do destino.

            “Depois do almoço” é outra história narrada por uma criança, que tem de levar a passear consigo um ser que a gente não sabe o que é – desconfio que seja um cachorro ou um irmão. Conto que parece discutir noção de responsabilidade e culpa que existem quando temos vontade de nos livrar de alguém. E é legal que o tratamento dado à culpa é natural, humano, não moralizador.

            O antepenúltimo conto, “Axolotes” é um dos melhores contos do livro, na minha opinião. Isso porque ele é um conto sobre impressões, um conto muito pessoal, apesar do teor “fantástico”. É difícil achar que não é próprio Cortázar que nos conta uma experiência que, de certa forma, realmente teve em sua vida, de uma maneira um pouco diferente da contada no conto. Ah, o enredo é sobre um jovem que vai ao Jardin des Plantes e se sente identificado com os estranhos seres que dão nome ao conto. Um conto onde, pra mim, Cortázar atinge a plenitude misturando o fantástico no plano metafísico e o íntimo, o pessoal, o particular no plano dos sentimentos e sensações.

            “A noite de barriga para cima” é outro dos melhores contos do livro (engraçado, parece que ele fica melhor conforme se aproxima do fim): um jovem sofre um acidente de moto e a partir de então, no hospital, começa a sonhar estranhas coisas, outra realidade, em que é um índio sendo perseguido pela tribo inimiga. Mais um conto onde os limites entre realidade e sonho são questionados.

            Por fim, fechando o livro com chave de ouro (ou seja, o contrário do que acaba de fazer esse chavão com este texto) temos o conto homônimo do livro. “Final do jogo” é, para mim, não só o melhor conto do livro, mas também um dos melhores contos de Cortázar. Nessa história temos novamente as crianças como narradoras, e isso significa toda a sinceridade e crueldade que lhes são particulares. Cortázar descreve lindamente os jogos infantis e mostra as relações sentimentais entre três garotas e um desconhecido que vira conhecido durante uma de suas brincadeiras. História muito bonita e um tanto triste sobre o amor e suas impossibilidades.

            “Final do jogo” é um livro que pode ser apreciado por todos, mas os que já conhecem outras obras suas podem identificar alguns padrões e entrever um pouco dos segredos dos enredos. Me parece uma leitura mais proveitosa se feita antes de outras leituras de Julio.

Um comentário:

  1. Cortázar é genial! Cada conto tem suas preciosidades. Fiz uma análise do conto "Depois do Almoço" no meu blog - https://contornosdaliteratura.wordpress.com/2015/02/15/depois-do-almoco-julio-cortazar/

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