quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Os autonautas da cosmopista


Capa da primeira edição, da Brasiliense
É sempre um pouco difícil chegar aqui e dizer algo sobre o último livro de Cortázar que acabei de ler (e acho que já repeti isso uma porção de vezes!), porque eles me pegam desprevenido, me surpreendem e aí eu fico sem saber como contar a maravilha que eles são sem estragar as surpresas que se tem quando se lê sem saber o que vai acontecer.

Mas “Os atuonautas da cosmopista” complica mais do que o normal essa tarefa. Não só pela diversidade do conteúdo (que eu comento mais adiante) como também por ter lembrado a esse “papador de moscas” que a minha proposta com esses textos não é um resumo, uma crítica, uma análise literária. Estou aqui pra contar pra vocês o que eu li e o que isso me fez sentir, como se fosse uma conversa de bar. Dissertações, teses, livros teóricos, isso tudo a gente acha nas livrarias, nos sebos, na internet. Agora, uma boa, emotiva e sincera conversa informal é bem mais rara. Bem, vamos a ela!

A edição nacional de “Autonautas da cosmopista” chama atenção pelo seu formato horizontal – sim, as páginas são mais largas do que altas – fazendo lembrar uma longa estrada. E é disso mesmo que se trata, como se verá adiante.

            Julio não escreveu sozinho esse livro, teve a companhia de Carol Dunlop, sua companheira. Também são deles as fotos que ilustram as páginas (e, pelo menos na edição nacional, a qualidade das mesmas deixa a desejar), mas os desenhos são do filho de Carol, Stéphane Hébert.

            A idéia principal do livro é documentar a viagem que Carol e Julio fizeram pela auto-estrada do sul, que une a capital francesa à cidade de Marselha, a mesma que dá nome ao conto encontrado em “Todos os fogos o fogo”. A estrada é longa e leva-se muitas horas para completar o trajeto, razão pela qual existem vários parkings ao longo da estrada, onde se pode parar para descansar e, dependendo do tipo de parking, comer algo num restaurante, se hospedar num hotel, comprar bugigangas em lojinhas.

            Mas a idéia dos dois não era assim, tão simples, claro. O que Cortázar e Dunlop fizeram foi literalmente viver na autopista durante mais de um mês. Abordo da Kombi de Cortázar e parando em dois parkings por dia (são mais de 60 nessa estrada), os dois fazem uma viagem paralela às viagens de todos os outros que passam pela pista.

            E é aí que o livro mostra todo seu potencial: ao ver as coisas por pontos de vista não convencionais. Com Cortázar já estou acostumado a ler isso, mas surpreende que Carol lhe acompanhe tão bem na empreitada e pareça imbuída do mesmo espírito alegre e da mesma postura de cronópio.

            E não se pode dizer que o livro seja só um livro de viagem. É, sim, um livro de viagem, mas temperado com humor, com amor, com ironia e com uma pitada saborosa de épico. Tudo isso e muito mais, fazendo um delicioso livro.

            No início, ficamos sabendo como ocorreu aos dois a idéia da viagem e, em tom de épico, eles nos contam os preparativos e arranjos (o que levar de comida, com quem deixar o gato...) para a grande expedição. Em seguida, começa a aventura! E, enquanto nos contam o que vivem (até o que comeram nas refeições, exceto quando Carol esquece de anotar o cardápio), vamos vendo um bonito diálogo entre o texto e as imagens, de maneira parecida com o que se vê em “Último round”: fotos dos parkings (vegetação, animais, passantes) e os desenhos de Stéphane, que representam os mapas dos parkings.

            É interessante que os dois façam seu próprio caminho automotivo, porque acredito que isso também se aplique a seus caminhos na vida – sempre seguindo pelos caminhos que não são os convencionais, incluindo a viagem que tem de ser feita no menor tempo possível. Acho que esse é o grande apelo de “Autonautas...”: o desbravamento dos mesmos caminhos por itinerários diferentes.

            Entre tudo isso e mais (visitas de amigos reais e imaginários, declarações amorosas e sensuais...) há até um conto dentro do livro, "Comportamento nas paradas", que tem como pano de fundo um parking.

            Um dos textos mais emocionantes (e note-se que são vários – muitas vezes me emocionei durante a leitura) é “Onde a Ursinha fala ao Lobo e tudo fica dito para sempre”, escrito para Julio por Carol (que escrevia muito bem, também, embora me pareça que os textos dela geralmente começavam um tanto nebulosos e iam atingindo a clareza conforme se dirigiam ao final). Uma linda declaração de amor a Julio, em que pesa fundo no coração do leitor, entre muitos outros trechos, o seguinte:

            “Você não compreendeu que presente de vida foi não ter morrido um ano atrás?”

            Chegar ao fim desse livro é especialmente melancólico. É triplamente triste: dá saudade de compartilhar com Carol e Julio a visão tão simples e pura de mundo que tinham; dá saudade da viagem pela autopista ao lado deles; e entristece ainda mais pela beleza do epílogo, em que Julio retribui a beleza que Carol colocara no trecho que citei acima.


            Dentro deste “Autonautas da cosmopista” estão algumas das mais tocantes páginas escritas por Cortázar. Mais tocantes (ainda que talvez não mais belas) do que o capítulo 7 de “O jogo da amarelinha”.

7 comentários:

  1. Adorei esse blog ele tem otimos textos depois dê uma olhada no meu blog http://www.derlandreflexivo.blogspot.com/
    E se quiser deixar sujestões e criticas eu irei adorar, pois e sempre bom ouvir quem ja conhece sobre o assunto.

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  2. Gustavo, como faço pra conseguir um exemplar em Português? Está tudo esgotado no fornecedor e nao há previsão de uma nova ediçao.

    Vou lançar uma pergunta indecorosa, mas lá vai: teu exemplar está sujeito à negociação? hahahaha

    Encomendei a versão em espanhol, mas queria em Portugues também.

    Já ia esquecendo: parabéns pelo blog e eu tenho invejinha de você, que já leu tuuuuuuudo isso dele.

    Amanda.

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  3. Oi, Amanda. Obrigado pelos comentários! Fico sempre muito contente quando alguém vem aqui e diz coisas legais sobre o Morellianas.

    Sobre o "Autonautas"... Você tem razão, está esgotado e só com sorte você encontra em sebos. Casualmente achei um, mas não vou dizer aqui onde ou alguém pode comprar antes de você e aí você ficará triste comigo. Escreva pro nosso e-mail (está lá no cabeçalho do blog) que conto. E o meu exemplar eu não vendo mesmo! É um dos xodós da minha biblioteca.

    E não precisa ficar com invejinha, você pode participar do Morellianas - fique à vontade para escrever alguma coisa para cá.

    Beijos!

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  4. Te mandei email

    beijo!!!

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  5. Olá, tudo bem?

    Adorei o blog, passei pra deixar parabéns.

    Te enviei um e-mail também, quem sabe no sebo tem mais de uma cópia do livro? hahaha

    Obrigada, abraço
    Ana Beatriz

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  6. Oi, Ana Beatriz!

    Obrigado pelos seus parabéns! :) Não faz ideia de como comentários assim são importantes.

    Em breve respondo teu e-mail, certo?

    Disponha e volte sempre! (Hehe!)

    Beijos!

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