quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Alguém que anda por aí

Capa da edição da Nova Fronteira

            A menos que se descubra um novo livro de contos de Cortázar, acabo de ler o último livro exclusivamente de contos escrito por ele: “Alguém que anda por aí”. Pode não ser o último cronologicamente (“Alguém...” é de 1977), mas era o último que me faltava ler.
            “Alguém que anda por aí” é um livro com 11 contos e quase nada de “fantástico” (aquele velho rótulo que teria de ser lavado antes que a gente pudesse reconhecê-lo); aqui predomina o ser humano e suas relações.
            A abertura do livro é “Troca de luzes” uma história de amor entre um ator de rádio-novela e sua fã, que vê nele mais do que os vilões que ele representa. Eles se conhecem por meio de cartas que ela manda e ele responde. Em cima disso, Cortázar desenvolve uma história sobre como idealizamos as pessoas e os relacionamentos.
            “Ventos alísios” também tem um casal no seu centro, só que um casal que já se conhece há tempos; se conhece e se entedia um do outro, a ponto de fazer uma viagem, uma viagem diferente, para tentar sair dessa rotina, para buscar algo que os livre dos grandes hábitos coagulados – uma viagem que pretendem que lhes mostre a liberdade. O problema é o que fazer depois de vê-la.
            “Segunda vez”: aqui se desenrola uma história que pouco definível, mas na qual sabemos que, mais para lá, há o desconhecido, aquilo que se teme por não se saber o que é. Tudo isso num ambiente de... repartição pública, ou algo parecido.
            “Você se deitou a teu lado”, apesar de seu nome estranho, não tem a ver com crises de múltiplas personalidades ou deslocamentos pessoais: o título é um jogo com o uso voseo (uso, em espanhol, do pronome vos) e o do tuteo (uso, na mesma língua, do pronome tu, que denota mais intimidade), creio ter lido isso dito pelo próprio Cortázar. A história em si é sobre o vínculo mãe e filho quebrado em um veraneio em que o rapaz começa a mostrar os primeiros sinais mais claros de puberdade.
            “Em nome de Bobby” traz o universo infantil e o universo dos sonhos juntos (um universo de fronteiras nada delimitadas), nos deixando sem saber onde estamos pisando e no que acreditar; ou seja, tudo o que Cortázar sabe fazer bem. Basicamente, é a história de um menino que diz que a mãe, tão bondosa de dia, lhe maltrata à noite. A sorte dele é que tem uma tia atenciosa e carinhosa.
            “Apocalipse de Solentiname” já foi resenhado por mim, porque apareceu também no posterior “Nicarágua tão violentamente doce”. De qualquer forma, acho que cabe um adendo: esse é um grande conto de Cortázar, ainda mais quando a gente se dá conta de que tudo aquilo acontecia mesmo (eu já imaginava, mas depois de ler “O livro de Manuel” os horrores da tortura ficaram ainda mais gritantes).
            Seguindo: “A barca ou a nova visita a Veneza”. Sempre que pensar nesse conto vou pensar em “cansativo”. Isso porque tem mais de 40 páginas e, no meio da narração temos comentários de uma personagem. É claro que isso faz parte do que é interessante no conto, e que é explicado no prólogo por Cortázar: esse texto era antigo quando ele o reencontrou e decidiu publicá-lo. Achava o conto cheio de falhas, mas não se sentia no direito de reescrevê-lo, então o que fez foi deixar que uma personagem desse seu ponto de vista no decorrer da história. O enredo é sobre uma mulher (outra, não a dos comentários) que foge do que sente, buscando algo além. É interessante ver a relação que transparece entre as duas mulheres por meio dos comentários dessa cuja “intromissão” Cortázar permitiu.
            “Reunião com um círculo vermelho”, em seguida, compensa a extensão do conto anterior com suas razoáveis oito páginas. Se há algum conto em que há o Fantástico, ou o clima dele pelo menos, este é o conto. Originalmente publicado num catálogo de uma exposição do pintor venezuelano Jacobo Borges, nesse conto Cortázar descreve como Jacobo viveu (no conto, pelo menos) uma experiência digna em atmosfera a um filme de terror. E, mais, Cortázar nos conta como Jacobo sentiu o perigo que envolvia a moça da outra mesa e que precisava fazer algo. Um bom texto em que muito de Cortázar está presente (leia o texto e entenderá por que).
            “As caras da medalha” deve ter sido muito citado ultimamente, porque “Ciao, Verona”, conto inédito de Cortázar descoberto há algum tempo, tem ligação com este conto. Pelo menos é o que dizem, porque (ainda) não li “Ciao, Verona”. De qualquer forma, novamente em “As caras...” o tema é um relacionamento.  Apesar do título meio místico e do início meio confuso, é um conto bem “lúcido” (há que inventar um antípoda para o sujo “fantástico” que uso aqui...), que fala da incapacidade de se aproximar (não fisicamente) do outro, de conseguir estar verdadeiramente perto, com corpo e sintonia.
            O conto que dá título ao livro vem em seguida e é daqueles dúbios, que a gente não sabe bem como interpretar (e acho que ler isso deixaria Julio contente): às vezes parece falar de ação política, às vezes do sobrenatural, às vezes dos sonhos... O resultado é um texto menos compreensível do que admirável e interessante de ler. Resumo básico: Alguém (a gente não sabe quem) tem que fazer algo (a gente não fica sabendo o quê) em um determinado lugar (que, adivinhe... não ficamos sabendo qual é!), mas ao parar no motel para descansar, a música lhe faz companhia, de uma maneira mais densa do que ele esperava. Outro conto dedicado a um artista: esse é para a pianista cubana Esperanza Machado.
            Fecha o livro um relato de boxe, esse tipo de texto que Cortázar escrevia e que me agrada tanto sem que eu saiba por quê. No caso específico de “A noite de Mantequilla” há o relato de uma luta (organizada por... Alain Delon!) mas há mais: há uma ação pouco clara mas compreensível acontecendo em torno do evento. Apesar disso e do final que nos dá um frio na barriga, o que empolga mesmo nesse conto são as descrições do combate – sempre me surpreende o peso no texto ser proporcional aos dos golpes; mas parece que a velocidade é inversamente proporcional: e Cortázar transforma em dança tensa o combate, fazendo a gente pular, onde esteja, como se estivéssemos na platéia do combate.
            Acho que “Alguém que anda por aí” é simbólico de toda a obra de contos de Cortázar: tem muito menos “Fantástico” do que dizem por aí, e no fim é o ser humano e as ciladas que ele se impõe que importam. E o importante não é compreender, é sentir.

2 comentários:

  1. Gustavo:

    Parabéns pelo seu trabalho.

    Sou de São Paulo e participo de um "Clube de Leitura" intitulado "Confraria das Lagartixas".

    Temos algo em comum: Julio Cortázar.
    Todas as quartas, nos reunimos para debater seus contos e claro, onde foi que desembocamos? No seu mar de informações.

    No momento, estamos debatendo "Alguém que Anda por Aí". Assim como vc mencionou, tbm achei um livro diferente, menos fantástico, mais terreno, mais vida.

    Ele se desnuda. Expõe relações pessoais e inter familiares. Estava discutindo agora com uma das confrades e discordamos sobre "Em Nome de Boby". Imediatamente fui no papa e percebi que vc tbm tem a mesma opinião que minha amiga. Ela tbm acha que a tia era boazinha. Como todos os contos do Cortázar, cada um interpreta como quer seus desfechos. Envolve nossa vivência pessoal e nosso olhar para a vida. No meu entender, a tia morria de ciúmes da mãe e de alguma forma disputava o garoto que não sabia o que fazer e vivia atormentado nos sonhos. Até que...

    Cortázar viveu rodeado de mulheres e neste livro, está tão nítido como ele soube se desvencilhar do lance de forma clara e definida. Saudável, feliz, olhando por trás das lentes da vida e seguindo.

    Vi a seleção de filmes relacionadas aos contos e adorei. Assista "A Vida Secreta das Palavras" e vc vai se deliciar com a "Srta. Cora".

    Um abraço,
    Cláudia Belintani

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  2. Oi, Cláudia!
    Obrigado pelo excelente comentário, que tanto melhora o meu texto, porque oferece um contraponto.

    Vou postar seu comentário, "re-comentando" ele, ok? Se você tivesse deixado seu site, iria te avisar por comentário, mas como você postou anonimamente... Enfim, vou procurar na internet. De uma maneira ou de outra, você vai ficar sabendo do novo post.

    Abração!

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